Recentemente um cara que eu considero muito inteligente e conciso me atentou pra um fato que tinha passado desapercebido por mim, esses anos todos - e provavelmente da maioria da galera (quero acreditar que, pra não me sentir bobinho demais): palavrões são nocivos, socialmente falando.
Como assim? Bem, vamos lá.
Filho da puta, vagabunda, vadia, vai tomar no cu, vai se foder, puta, viadinho, corno, cotoco, perna-de-pau, cuzão, virjão, cabaço, retardado, lesado, filho duma descabaçada, filho duma rapariga, bichinha, baitola, pau no cu, cachorra, cadela, piranha, rabudo, moleque, remelento, chifrudo. Xingamentos comuns, que usamos no cotidiano, soltamos sem pestanejar, quando batemos o dedinho do pé na quina do móvel ou quando estamos bravos com alguém.
Usamos termos muitas vezes ligados a uma condição ou gênero da pessoa. Muitas das ofensas são ligadas à sexualidade da mulher e trabalhando nelas de maneira pejorativa. Vadia, vagabunda, puta, filho da puta. Mesmo quando queremos ofender a pessoa, ofendemos a mãe. Ou se queremos xingar um homem, é corno, é viado. A culpa é da mulher. Ou dele gostar de homens.
Se comete algum erro leviano, é virgem, cabaço. Como se transar fosse um ritual de passagem onde as pessoas magicamente se tornassem mais sábias e competentes. Pffffff. Além de tudo, mais uma vez, a culpa voltada à sexualidade. Não tá de saco cheio de ficar regulando a foda alheia não? Deixa a galera trepar a vontade e ser feliz, larga esse recalque de lado e vem pra esse rolê mais festivo!
E o popular vai tomar no cu e suas derivações, como o 'vai se foder'. Conta pra gente, aqui: quem que pratica sexo anal? Homem hétero que não é. É mulher e homem homo. E o termo é usado como ofensa - ou seja, coloca em posição de inferioridade quem pratica (dica, gente: isso é machismo). Como o que aconteceu com nossa presidentA, em episódio recente, quando um grupo puxou, em coro, um xingamento desses - que infringiu em alguns pontos da Constituição Federal E Código Penal (então é crime, gente!). Só demonstrando como nossa sociedade pode ser bem preconceituosa. Quer discordar da Dilma? Critique sua política, suas decisões. Se ela der o cu, o problema (ou prazer) é todo dela, e vocês não tem que regular a foda da pessoa mais poderosa do país!
E antes que digam que isso é mimimi, que é frescura, vai um puxão de orelha: não é. É uma série de preconceitos que são tão enraizados que não notamos essas ""sutilezas"", tornou-se comum oprimir. Se queremos ofender alguém, que ofendamos sua conduta real, e não usemos termos que perjorem sua imagem por usar termos ligados a gêneros, orientação sexual ou etnia. Quer xingar alguém? Chame de hipócrita, tapado, bobo, feio, chato, cara de mamão, olavete...
A língua é a expressão máxima da cultura de um povo, é como a gente se comunica, como passamos todas nossas mensagens, transmitimos conhecimento e noções da sociedade. Lutar contra essa cultura de estupro, homofóbica, etc etc é nosso dever. Dizer que é pra deixar de lado é como dizer que o racismo vai se extinguir por não falarmos nele - e daí caímos nesse racismo velado que vemos no nosso país, onde ninguém é racista, mas boa parte da galera muda de calçada quando vem um negro na sua direção.
Fica a dica pra repensarmos nesse lance de palavrões. E aceito sugestões de novos xingamentos, isentos desse cunho preconceituoso, preciso refazer meu vocabulário :)