Recentemente um cara que eu considero muito inteligente e conciso me atentou pra um fato que tinha passado desapercebido por mim, esses anos todos - e provavelmente da maioria da galera (quero acreditar que, pra não me sentir bobinho demais): palavrões são nocivos, socialmente falando.
Como assim? Bem, vamos lá.
Filho da puta, vagabunda, vadia, vai tomar no cu, vai se foder, puta, viadinho, corno, cotoco, perna-de-pau, cuzão, virjão, cabaço, retardado, lesado, filho duma descabaçada, filho duma rapariga, bichinha, baitola, pau no cu, cachorra, cadela, piranha, rabudo, moleque, remelento, chifrudo. Xingamentos comuns, que usamos no cotidiano, soltamos sem pestanejar, quando batemos o dedinho do pé na quina do móvel ou quando estamos bravos com alguém.
Usamos termos muitas vezes ligados a uma condição ou gênero da pessoa. Muitas das ofensas são ligadas à sexualidade da mulher e trabalhando nelas de maneira pejorativa. Vadia, vagabunda, puta, filho da puta. Mesmo quando queremos ofender a pessoa, ofendemos a mãe. Ou se queremos xingar um homem, é corno, é viado. A culpa é da mulher. Ou dele gostar de homens.
Se comete algum erro leviano, é virgem, cabaço. Como se transar fosse um ritual de passagem onde as pessoas magicamente se tornassem mais sábias e competentes. Pffffff. Além de tudo, mais uma vez, a culpa voltada à sexualidade. Não tá de saco cheio de ficar regulando a foda alheia não? Deixa a galera trepar a vontade e ser feliz, larga esse recalque de lado e vem pra esse rolê mais festivo!
E o popular vai tomar no cu e suas derivações, como o 'vai se foder'. Conta pra gente, aqui: quem que pratica sexo anal? Homem hétero que não é. É mulher e homem homo. E o termo é usado como ofensa - ou seja, coloca em posição de inferioridade quem pratica (dica, gente: isso é machismo). Como o que aconteceu com nossa presidentA, em episódio recente, quando um grupo puxou, em coro, um xingamento desses - que infringiu em alguns pontos da Constituição Federal E Código Penal (então é crime, gente!). Só demonstrando como nossa sociedade pode ser bem preconceituosa. Quer discordar da Dilma? Critique sua política, suas decisões. Se ela der o cu, o problema (ou prazer) é todo dela, e vocês não tem que regular a foda da pessoa mais poderosa do país!
E antes que digam que isso é mimimi, que é frescura, vai um puxão de orelha: não é. É uma série de preconceitos que são tão enraizados que não notamos essas ""sutilezas"", tornou-se comum oprimir. Se queremos ofender alguém, que ofendamos sua conduta real, e não usemos termos que perjorem sua imagem por usar termos ligados a gêneros, orientação sexual ou etnia. Quer xingar alguém? Chame de hipócrita, tapado, bobo, feio, chato, cara de mamão, olavete...
A língua é a expressão máxima da cultura de um povo, é como a gente se comunica, como passamos todas nossas mensagens, transmitimos conhecimento e noções da sociedade. Lutar contra essa cultura de estupro, homofóbica, etc etc é nosso dever. Dizer que é pra deixar de lado é como dizer que o racismo vai se extinguir por não falarmos nele - e daí caímos nesse racismo velado que vemos no nosso país, onde ninguém é racista, mas boa parte da galera muda de calçada quando vem um negro na sua direção.
Fica a dica pra repensarmos nesse lance de palavrões. E aceito sugestões de novos xingamentos, isentos desse cunho preconceituoso, preciso refazer meu vocabulário :)
*** Este texto tem cunho muito mais emotivo-reflexivo do que uma sequência lógica de pesquisas, como outros textos do "brógue"***
Primeiramente bom dia.
Acho válido abordar o tema da "esquerda" e "direita" de uma maneira mais sutil, talvez escrevendo algo mais denso depois, mas a ideia é explicitar o porquê de ter escolhido "o lado vermelho da força".
Acho demasiadamente superficial chamar a esquerda de socialismo e a direita de capitalismo, até porque são duas ideias meio cruas, a serem coloridas com tantas nuances a serem preenchidas que a coisa fica complicada de ser delimitada como um sistema econômico, "somente". Não se trata só de economia.
Certa vez, numa dessas conversas de boteco, com um bróder que considero muito sapiente em suas colocações, me foi apresentado um panorama bem interessante sobre ser "de esquerda" ou "de direita": "se é a favor do sistema, você é de direita; se é contra, você é de esquerda". Foi o que o Wel disse.
Acho que ouvimos tanto que precisamos ser pessoas direitas na vida, que precisamos seguir a conduta social, que precisamos estudar, casar, ter filhos, comprar uma casa, plantar uma árvore, escrever um livro - e não necessariamente nesta ordem. Mas casar precisa ser antes de ter filho, porque sexo só depois do casamento. Qualquer coisa aperta a barriga da noiva com espartilho pra esconder a criança que tá crescendo ali. Pena de morte, redução da maioridade penal, esconder renda pra pagar menos imposto (que o governo 'rouba' demais)? Perfeito, totalmente legítimo. Aborto, respeito ao corpo da mulher, educação de qualidade para todos, oportunidades iguais a todos os cidadãos, casamento para pessoas do mesmo sexo, bolsa-família? Ah, isso é coisa de esquerdopata, é privilégio, é vagabundo querendo viver às custas dos outros que trabalham pra valer.
O problema maior em ser um "cidadão de bem" é justamente essa capacidade que ele se põe de enxergar sua vida como a única realidade plausível e possível. Os pais dele eram pobres e batalharam, deram condições para que ele estudasse. Trabalhou desde pequeno, sabe como é, não é um 'vagabundo', trabalhou duro para ter o que tem hoje. E vive numa bolha. Acontece que vivemos em uma sociedade. É tipo um monte de bolha, uma grudada na outra - e se virmos isso de longe, é uma espuma (tipo quando aperta uma esponja de lavar louça com detergente e sai a espuminha branca, saca?). Daí acontece uma coisa meio diferente. Uma unidade é diferente do todo, as propriedades mudam, sacomé. E isso não acontece só nesse caso, é mais ou menos algo universal: uma partícula de carga q tem um comportamento; se submetermos a todo um campo eletromagnético, as coisas mudam bastante; ou um aminoácido, no meio de uma proteína, a coisa muda. Ou uma molécula de gás, no meio de um sistema inteiro. Fugindo do micro, indo pra 10¹: rebanhos de animais, manadas; no macro, temos correntes oceânicas, convergência de ventos - e saindo do planeta, ainda temos toda a estrutura do universo baseada em interações. Me diz qual a lógica que tem em um cidadão achar que a verdade dele é a única e que seu sucesso e sua vida dependem apenas de seus esforços, quando O RESTO DO UNIVERSO tá mostrando que tudo depende da interação? Osso, né, galere.
Bem, partindo do pressuposto lógico, de que convivemos em sociedade e que o rumo que esta toma nos afeta diretamente, fica o questionamento:
"Você está de acordo com como as coisas estão, ou acha que tem muita coisa errada por aí?" Desculpa, mas ninguém tá contente com o modo que as coisas são conduzidas, hoje em dia. Então por que propagar o erro? Por que continuar agente mantenedor desse sistema caótico? Por que não mudar algumas diretrizes?
O erro mais comum que consigo enxergar (em mim e) em todos é o de não nos colocarmos no lugar do outro, a falta de empatia pelos demais. Temos uma preguiça crônica de virar o pescoço e olhar pra bolha ali do lado, e ver que dentro dela tá faltando comida, dignidade, acessibilidade à toda e qualquer coisa que pode nos estar sobrando. São pretos pedindo para que não haja mais discriminação, do meio acadêmico ao esporte; são gays pedindo o direito de seus gostos serem respeitados, sem que sejam agredidos; são mulheres pedindo dignidade às suas pessoas, seus corpos, seus salários; são pobres pedindo que finde a exploração para que ricos se sustentem num luxo incoerente; são religiões (maior parte não cristã) que tem seus altares e crenças destruídos; são índios sem ocas; são peões sem terra; são quilombolas sem chão; são craqueiros sem dignidade... São tantos direitos negados a tantas pessoas... E a conduta que rege essa nossa levada só resulta num caos, na extinção de todos nós. Não podemos ser coniventes com a destruição do próximo, porque o próximo somos nós mesmos!
Somos ensinados a rechaçar o diferente, mas ninguém aqui é igual, todos temos nossos traços e nossos perfis. Não podemos travar uma guerra contra nós mesmos. Precisamos da empatia com o próximo, para desconstruir esse sistema nervoso e nocivo que nos julga e condena. Uma justiça imperfeita regida por sentimentos de ódio e intolerância, uma competitividade ensinada desde que nascemos. Por isso sou de esquerda. Não concordo com esse ritmo caótico que não nos quer por aqui. Discordo de como as coisas são carregadas, empurradas com a barriga. Não quero que nossos preconceitos nos destruam, não quero que tenhamos privilégios sobre os demais, baseando nosso luxo na miséria. Não quero que alguém derrame lágrima pra desenhar meu sorriso (nem azinimiga). Quero que as pessoas sejam respeitadas pelo que são, que as oportunidades sejam iguais. Que tenhamos todos os mesmos direitos e privilégios.
Pode chamar de esquerdopata, pode chamar de petralha, pode chamar de esquerdista. Sou mesmo. E com orgulho. Quando o sistema for o amor e o respeito, aí eu serei de "direita" ;)
Bem, um dos assuntos mais discutidos nessa onda de pessoas pseudo-politizadas (entre as quais eu me incluo), e um dos debates que gera maior hostilidade - e talvez desonestidade em ambos lados na obtenção de informações, além da parcialidade. Então o que colocarei aqui é um compilado de informações e pontos de vista que retratam o que e como penso, assim, da próxima vez que houver um debate, ao invés de longos diálogos e exposições de ideias - que já estou cansadão de debater, e não achei argumentos forte o suficientes pra alterar meu ponto de vista - serão despejadas na forma deste texto. É de se esperar que seja orgânico, e sempre haja atualização, conforme amadurecer mais e mais.
Estou sempre aberto ao diálogo e sugestões, então, por mais que meu posicionamento seja diferente do seu, camarada, peço o favor de apresentar contrapontos consistentes e que já não estejam embasados aqui, ok? =D
Dica: será longo e doloroso, tenha paciência e mantenha o foco.
Sobre a proporção da população
No Censo do IBGE de 2010, pela primeira vez na história do país, tivemos uma maioria não-branca no país. Em 2000, 44,7% da população se declarava preta ou parda. Em 2010, onde participei como recenseador, tivemos um total de 50,7% da população declarada preta ou parda. Isso demonstra uma maior miscigenação ou maior nascimento de pretos/pardos? Não. Isso mostra que as pessoas se declararam mais pretas ou pardas.
No treinamento para recenseador, fui orientado a nunca induzir uma resposta, apenas expô-la da forma como era feita. A pergunta sobre cor era assim:
*Fulano* se declara: (onde fulano era o nome da pessoa, já que você registrava o nome dos habitantes da residência)
( ) Branco
( ) Preto
( ) Pardo
( ) Amarelo
( ) Vermelho
E se a pessoa perguntasse o que eu achava, eu só dizia: a pergunta foi feita, o senhor/senhora quem escolhe, de acordo com o que achar. E, como já foi dito por várias pessoas, o conceito de cor é algo muito volátil. Eu posso facilmente ser considerado preto, se morasse em uma cidade onde a predominância é de descendentes alemães, como seria, com certeza, dito branco, em Salvador, onde a população majoritariamente é negra. Então notamos que é algo muito sensível.
Podemos ler o texto onde estes 5 grupos étnicos foram separados, segundo o IBGE em ( http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/TDs/td_0996.pdf ).
Notei, nesse espaço amostral, que muitas pessoas com tom de pele mais escuro que o meu se declararam brancas - e vocês que me conhecem sabem que eu não sou exatamente branco - enquanto pessoas com tom de pele similar ao meu - ou até mais claro - se declararam pretas; notei que houve um GRANDE preconceito por dizer preto, que é o modo de exposição feito no palmtop que nos foi concedido. Era negro. Não preto. Mas o branco era branco, não caucasiano... Mais sobre isso será discutido a frente.
Outro ponto interessante nessas declarações é que muitas se baseavam no cabelo. Se fosse carapinha, era preto. Se era liso, branco. Muitos evitavam o pardo.
Voltando à temática: nota-se que uma maior parte dos brasileiros se declarou preta/parda. E aí podemos ter acesso a um outro dado, interessante:
Segundo IBGE (2007), tínhamos 5,6% dos brancos da população cursando ensino superior, enquanto 2,8% de pretos/pardos.
Como fica difícil reunir dados mesclados de universidades públicas estaduais e federais, usarei apenas as federais, já que apresentam maior representatividade em espalhamento no território nacional, ok?
O número de pretos e pardos nas universidades federais era, antes das cotas, de 34%, perto de uma população que representa 50,7% da população brasileira. Como um geral (estaduais, federais e privadas), as cotas forçaram um aumento de 34,2% de pretos e pardos para 40,8%, o que ainda gera uma hipo-representatividade, onde os brancos, que representam 47% da população brasileira, detém 56% das vagas das universidades, ou seja, uma hiper-representatividade. Valendo-se do preconceito com asiáticos, cerca de 2,1% da população se declara amarela, e quase 4% dos estudantes do nível superior são asiáticos.
De qualquer maneira, vemos que as cotas tiveram um impacto sensível, que já demonstra uma mudança no panorama geral das universidades. Ainda assim, vemos que os percentuais estão BEM desbalanceados na relação brancos e não brancos na população geral e nos alunos do nível superior.
Desempenho dos alunos cotistas
É curioso analisar, quando pesquisa-se o tema desempenho dos cotistas. Lembrando que as cotas, aqui tratadas, são as gerais - tanto para alunos de escola pública quanto para negros alunos de escola pública. Se pegarmos notícias de fontes como Veja! ou da Folha de São Paulo, teremos um panorama negativo dos cotistas (a mesma Folha que deu uma dessas: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2013/10/1352429-renda-maior-do-trabalhador-come-lucro.shtml). Mas ao verificarmos dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), um órgão federal vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, demonstra outro parecer:
As cotas representam 12,5% das reservas de vagas. Como estatísticas ainda não puderam ser construídas com as federais, apresento os dados da Unicamp e da UnB, universidades que apresentam sistema de cotas há mais tempo.
Em 31 dos 55 cursos da Unicamp os alunos cotistas apresentaram um Coeficiente de Rendimento igual ou superior à média, bem como em 11 dos 16 cursos da UnB. Embora na UnB o índice de aprovação dos não-costistas tenha sido superior (~93% contra 88,9% dos cotistas), o índice de trancamento (quando você se desliga de uma disciplina, iniciando-a em outra oportunidade) entre costistas foi de 1,73% contra 1,76% de não-costistas. Índices que representam a mesma realidade, no que se refere a trancamento de matrícula, da Unicamp.
Ou seja: vemos que o desempenho dos cotistas NÃO é inferior ao dos não-cotistas. (Primeira derrubada de argumentos sobre 'cotistas não terem capacidade por terem sido empurrados pra dentro').
Já a Folha demonstrou que as notas dos cotistas é menor no ENADE. O que será discutido mais a frente. Mas é uma vergonha, convenhamos.
A realidade universitária no país
A pergunta é: por que você quer um diploma? Quantos vão responder que é para aprender? Não sei. Mas tenho certeza que a grande maioria está no ensino superior para descolar um emprego melhor.O diploma deixou de ser um diferencial e tornou-se algo básico que todos tenham. Aí reside a falha - que será discutida mais à frente - o que será discutido, agora, será a consequência dessa hipervalorização do diploma.
O Brasil apresenta 12% da população detentora de diploma de curso superior. Perto do nosso quase vizinho Chile (25%) da população, índice próximo aos países nórdicos. O recorde é da Rússia, com mais da metade da população diplomada. Sim, no Brasil temos pouquíssimos diplomados, o que gera uma hipervalorização daqueles que o tem. É o que acontece quando a procura aumenta, loucamente.
Notemos que o enfoque de uma universidade pública, entretanto, não é o mercado de trabalho, e sim o tripé básico de pesquisa - docência - extensão. Formação de tecnicistas é secundária. Quem assume a responsabilidade de formar profissionais para o mercado de trabalho são as faculdades e universidades privadas, que, segundo o MEC, receberam em 2012 73% das matrículas do ensino superior no país. As instituições de ensino superior privadas vem crescendo em número. Segundo a revista The Economist (2012), das cerca de 2400 universidades do Brasil, 10% são públicas e 75% são instituições particulares com fins lucrativos. Você paga a faculdade, você ganha o diploma - e não necessariamente aprende alguma coisa no meio termo. Sendo sim generalista, pois poucas são as universidades privadas que tem recursos próximos às públicas e que tenham a condição de manter um nível de ensino razoável.
Pesquisa do MEC revela que 38% dos universitários podem ser considerados analfabetos funcionais. Isso é grave. Pergunta qual a proporção destes em universidades públicas? =)
O ponto crucial da coisa é a metodologia utilizada para avaliação dos cursos superiores. O ENADE. Para quem enxerga de fora, pode parecer algo justo e sensato. Mas não o é. É uma prova banal, onde analisa-se um nível ridículo de conhecimento.
É comum, durante cursos universitários, a presença de disciplinas eletivas, que são disciplinas que o aluno pode escolher uma área do conhecimento para estudar melhor. Muitos amigos meus se beneficiaram e aprenderam muito com tais disciplinas eletivas, na Unicamp. Mas a realidade é outra, quando analisada em algumas universidades privadas: este espaço destinado à aquisição de conhecimento é transformado em um "cursinho pré-Enade", onde, como as provas do ENADE apresentam um formato constante, os professores dão um treinamento para que os alunos apresentem bom desempenho nesta avaliação. É mais ou menos como um vestibular: a pessoa não precisa necessariamente saber, ou saber como utilizar, ela só está reproduzindo um conhecimento (conhecimento não é capacidade ou inteligência) - isso será discutido mais a frente (pra variar um pouco - e cansar mais o leitor, desculpa o/ ). E os alunos que tem a melhor nota no ENADE ganham MBAs, formações continuadas, brindes, livros, etc. Aí você pode perguntar: e qual o mal nisso? Coleguinha, isso é crítico. Você tá substituindo a formação técnica de uma pessoa por um amontoado de informações, uma decoreba só. E aquele curso, que era ruim, mas teve um bom pré-enade, acaba sendo aceito pelo MEC com notas altas.
Pasme - os cursos mais afetados por este sistema são aqueles referentes à formação de docentes da educação básica - e cada vez temos professores piores para o ensino fundamental e médio - e profissionais, num geral, menos competentes. Tirando as dúzias de resoluções do MEC que visam deixar os cursos iguais em competências, mas sempre nivelando por baixo, nos catálogos mínimos. É a indústria do diploma, que gera um "lucro" grande ao Estado, por apresentar maior número de pessoas no ensino superior, e ganha um dinheiro bruto em cima dessas universidades privadas.
Logo, o problema da formação básica vem sim, parcialmente, daí.
O comum é que, com essa proliferação de universidades que brotam por aí mais rápido que lojas de fast-food, sem estrutura necessária, com preços de mensalidades baixíssimas, acaba atendendo às camadas mais pobres da população que, como veremos a seguir, tem cor sim. E gera uma segregação forte entre faculdades privadas de ricos, universidades públicas excelentes e um grupo de faculdades com baixa qualidade, para as classes C, D e E. Segregação sentida fortemente quando se diz respeito ao mercado de trabalho.
A diferença sócio econômica de acordo com a cor da pele
Começando o enfoque às cotas voltadas aos negros, talvez aconteça certa demagogia, mas tentarei evitar.
O ponto crucial do programa de cotas por cor de pele começa a ser definido a partir deste padrão.
A seguir, uma tabela de comparação entre os rendimentos, nas regiões metropolitanas, de negros e não negros, no biênio 2011-12, pelo DIEESE:
Note que o rendimento do negro, na média, é de ~64% o de um não negro. Ou seja, negros ganham 64% do que brancos ganham.
Outro fato marcante, considerando o fato da idade típica do universitário ser entre 18-30 anos, é o índice de criminalidade que aflige a juventude. Segundo o Mapa da Violência 2012, temos que 71% dos jovens mortos eram pretos ou pardos. Outro ponto importante é que, de 2010 pra 2012, o índice de brancos mortos reduziu 25,5%, enquanto o de negros aumentou em 35,3%. Isso aponta uma tendência da violência social, característica básica de regiões periféricas.
Dentre os miseráveis (IBGE, Censo 2010) (pessoas que tem renda mensal abaixo dos R$70,00), 71% são pretos ou pardos. E 51% tem até 19 anos. A proporção de homens e mulheres é praticamente a mesma (algo bem próximo de 50-50%). Dentre a linha que está aquém da extrema pobreza, o perfil pode ser fielmente repetido. Com isso temos a ciência de que a maioria dos pobres é constituída por pretos e pardos.
O que temos, entretanto, é uma fatia da população constituída por brancos e pobres, o que nos leva ao questionamento que muitos dos que contestam as cotas costumam fazer:
E aí que atingimos o ponto crítico, que é o chamado Capital Cultural.
O capital cultural (e suas consequências universitárias)
O conceito de Capital Cultural foi proposta (pelo que eu saiba) por Pierre Bourdieu, que tem uma certa interação com o conceito de classes proposto por Marx. Esse capital cultural seria um 'poder' intimamente ligado à educação, embora irrestrito a ela.
Dentro de uma sociedade, é claramente identificado quem pertence à elite, pela condição financeira e poderio econômico, o capital material. Esta camada mais abastada da sociedade possui uma série de hábitos, de costumes, crenças, comportamentos, tendências, expressões culturais ou mesmo gírias - e até a aparência. É uma fronteira que Bourdieu traçou como a separação entre os "nobres" e os "meros plebeus", e seria uma força (esse tal capital cultural) quase tão poderosa quanto o próprio capital financeiro.
Dentro desta conjuntura social, denominada capital cultural, a de se observar que àqueles que tiverem maiores semelhanças aos hábitos desta elite, apresentam maior capital cultural, o que leva estes indivíduos a terem maior apreço social em todos os ramos da sociedade. Uma hierarquização do gosto da população. E da aparência. Podemos ver a expressão do estereótipo tomado como global ideal representado em novelas, revistas, propagandas. Num marketing, como um todo. E a Cultura Pop (leia mais sobre num texto antigo, aqui do blog: Cultura de Massa) é tomada como a diretriz do que é bom e correto ser ouvido, seguindo ao interesse da elite vigente.
Para não estender muito no conceito, vamos ao vestibular: uma coisa é um fato impossível de se negar - o vestibular é um sistema ineficaz que não analisa a capacidade intelectual do indivíduo, e sim uma quantidade determinada de informações que foi absorvida e "assimilada" pelo aluno - e não propriamente a competência de absorver uma informação e aplicar em diferentes áreas, ou uma medida direta de inteligência/competência. E como toda análise de quantidade de informação, ela tem um enfoque, que por sua vez é dado para o conteúdo de quem tem maior capital cultural.
Um exemplo bem básico de como isso acontece, no ensino, é se analisarmos a disciplina história. Vemos, desde nossa primeira série, um ensino de história eurocêntrico; aprendemos sobre a história da Europa desde o começo da civilização ocidental, mas é relevado todo - ou quase todo - o ensino da população oriental, como Japão, China, Índia (exceto a interação entre Índia e europeus), além de todo o continente africano, sumariamente ignorado. Não nos é ensinada a história negra. Não temos noção das tribos, de como se deu a colonização da África. E isso se estende para a formação da periferia, para a cultura negra no país. Ou a cultura indígena no país; só se fala de índios em 19 de abril.
Além de toda a segregação social que estas duas quase que castas sociais já sofrem, pelo preconceito propriamente dito, ainda tem, num processo que deveria ser democrático de seleção de indivíduos, em relação à capacidade, uma desvantagem no cunho social. A vivência tanto que negros quilombolas ou indígenas sofrem, em relação ao ensino, nem tem como ser questionada, já que a educação deles tem um enfoque bem distinto do que é tomado como cultura formal. Mas nem precisa ir tão longe. Temos a periferia com sua identidade, totalmente desvalorizada. A sociedade enxerga o pobre como subumano, como um lixo, como algo a NÃO ser seguido (o que soa meio incoerente, visto que o país é majoritariamente cristão e o manda chuva do cristianismo pregava o desapego dos bens e todo mundo viver como igual, respeito ao próximo e tal...). E, como uma 'classe' desvalorizada, sofre com a redução de sua importância e o que sai da periferia também não será usado no vestibular. O que aprendem nas escolas públicas é algo superficial, do aspecto da cultura formal, então saem prejudicados - e não é pouca coisa não - ao que se trata de conteúdo de vestibular.
Pelo outro lado temos uma estreita fatia da população que concentra maior parte da renda do país, e os frutos dos pais que concentram o dinheiro (o lance de 10% da população deter 50% do PIB), que já tem sua cultura tida como a formal, seu capital cultural já é o mais valorizado, sua verdade já é a universal, ainda tem o empurrão de um vestibular que cobra o que essas crianças aprendem na escola. E no cursinho. Cursinho que os pais pagam de 1000 a três mil reais por mês, para o filho engolir o que já viu na escola desde a primeira série, que é a verdade dele. Três mil reais é o que uma família da periferia tem, às vezes, 3 a 4 meses para a CASA inteira se sustentar, das classes C e D, no país.
Pobres e brancos
Chegamos ao segundo ponto crítico. Do mesmo modo que não se pode negar que haja preconceito, não se pode negar que haja brancos pobres. Temos, hipoteticamente falando, 29% da população na extrema pobreza, branca. E a proporção se mantém entre os pobres. Deve, entretanto, entender que muitos dos pretos e pardos, por uma vergonha, por uma falta de incentivo, acabam por não se declararem negros, além da relativização, já mencionada acima, sobre ser branco ou preto.
Um texto bom sobre essa falta de paridade pode ser conferido em (IPEA, diferenças entre negros, pardos e brancos). Podemos, pela Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2010, notar que o salário médio do branco, em relação ao do preto e pardo, é de mais de 46%. Um branco tem um salário médio 46% maior que de um não-branco - inclusive para cargos similares. Ou seja, um negro ganha 70% do que um branco ganha. O branco pobre acaba por ser menos pobre que o preto pobre. Analisando o IDH da população branca, brasileira, teríamos um índice de 0,814, 44ª no ranking mundial. A população dos não-brancos teria IDH de 0,703, e ficaria na 105ª posição, ao lado de El Salvador.
Além de ter o capital cultural favorecido.
Como assim? Na época da escravidão, os negros escravos eram tomados como vagabundos e desleixados, e essa cultura foi propagada até os dias de hoje, com aqueles dizeres "quando não faz na entrada, faz na saída", "tinha que ser preto" e daí pra pior. Não se trata de uma reparação história, propriamente dita, mas de um conceito que quem tem uma pele mais escura tem menos capacidade. Isso é tão tomado como uma verdade subjetiva, no âmbito social, que se analisarmos o índice de desemprego, bate à porta dos 10% entre os negros, enquanto dos brancos (IBGE, 2010), está na casa dos 6%. Houve casos onde negros foram cortados de dinâmicas para grandes empresas sem maiores justificativas, após apresentarem um desempenho maior que a média dos brancos. É um racismo intrínseco que ceifa as oportunidades dos negros. Então, sim, temos brancos pobres, mas estes tem uma maior chance de 'crescimento' dentro do nosso sistema do que o pardo e principalmente o negro, que já é olhado com desconfiança. Por isso inviabiliza falar em cota social, porque o contexto social é diferenciado. E não é uma retratação histórica.
Resumo da obra
Primeiro ponto a se entender: cotas são uma reserva de certa porcentagem para indivíduos que se declaram negros ou índios. Não são escolhidos ao acaso, são os que, dentre essa classificação, obtiveram melhores resultados no vestibular. Segundo ponto: é um acréscimo na nota, então, se forem pior que os não negros, eles não vão entrar.
A cota existe para estudantes de escola pública (afinal de contas: universidade pública deveria ser prioritariamente para estudantes de escola pública - o que não vemos hoje em dia), e há um acréscimo se este for negro/pardo, e esse acréscimo seria um modo virtual de suprir uma desigualdade em como o sistema encara o branco e o não-branco.
Estatisticamente está comprovado que os negros e pardos são muito mais desfavorecidos em relação à capital, ao acesso à educação, sofrem mais com a violência, entre tantos outros fatores (muitos apontados acima, no texto). O que nos traz o seguinte questionamento: o vestibular é, de fato, meritocrático? Não, não é. As cotas se apresentam, portanto, como uma maneira justa - lembrando a importância da relativização neste caso - de aproximar o vestibular e o acesso às universidades de um processo democrático, onde o pobre poderá ter acesso ao ensino superior e se qualificar.
É impossível desenvolver um programa federal que analise cada indivíduo, então trabalha-se com os grupos prejudicados, estatisticamente analisando, e com isso temos a clara noção de quem mais precisa das cotas, de fato, é essa fatia da população que sofre com todo esse contexto negativo.
Injusto é um menino como este:
Não poder ingressar na faculdade (à merda que ele não é muito mais inteligente que muito filhinho de playboy que vai pra engenharia mecânica), porque o professor de escola pública sofre com um salário miserável, tem uma carga horária sobre-humana e acaba por adoecer, ou não ter professores o suficiente para lecionar - além de lutar contra a corrente, porque é visto que por mais que estudem, essas crianças da periferia jamais terão o espaço e a dignidade que um branco da classe média. Então crianças como este menino aí ficam sem aulas, perdem o conteúdo do que vai cair no vestibular e não terão chance de competir com alunos do cursinho de 3 mil reais por mês.
E se vierem falar que é só trabalhar e se esforçar mais que eles sobem na vida, lembre-se: eles estão totalmente contra a corrente, lutam com uma série de coisas que a maioria de quem critica as cotas nem imaginam. Exceções? Sempre tem. Se for falar de exceção, porque todo branquelo rico não vira um Newton, da vida? Não é só se esforçar que dá certo?
Os dados estão aí; negros e pardos sofrem mais com a violência, tem menor acesso a emprego, etc etc etc.
Melhorar o nível da educação básica? Sim, é a solução. Mas como fazê-lo? Isso vai ficar para outra postagem, porque é um assunto delongado.
As cotas não são definitivas, são uma medida paliativa. Esperamos um dia não precisarmos mais dela, para termos um sistema de avaliação justo e democrático.
Se meus argumentos não bastaram, convido você, leitor ou leitora, a participar da vida de uma comunidade da periferia por um mês, frequentar as aulas, conhecer a realidade deles.
Gostou? Comente aqui embaixo, compartilhe, converse comigo. Tem uma posição diferente, favor me contar! A ideia é sempre rolar uma troca de conhecimentos e experiências =)
Algumas horas nos separam das piadinhas já manjadas como "o velho tá na UTI e logo se vai", "dormi em 2013 e acordei só em 2014", "nossa, última vez que tomei banho foi ano passado", "mas isso parece ter acontecido no ano passado".
É sempre assim, em toda muda de ano, como se o circundar elíptico da terra completo nos trouxesse uma vida nova, um ano cheio de perspectivas e promessas que iremos cumprir. Um feliz ano novo. Ou seria só mais um novo ano? Só mais 365 dias para viver a mesma vida de sempre, com alguns novos caminhos.
O que faz um ano diferente não é a virada do calendário. E essa energia do final do ano deveria ser aproveitada. Esse nosso fôlego de lutar, de mudar nossa vida, nossa realidade, nosso mundo... Isso é a única coisa que tem que ser conservada. Esse ímpeto da mudança, é isso que temos que fazer durar.
Então que tal fecharmos um acordo aqui, entre nós? Vamos fazer com que cada dia de 2014 seja como 31/12/2013 ou 01/01/14. Vamos manter essa nossa vontade de correr atrás das coisas. Vamos ser todos policiais de nós e de nossos coleguinhas, e fazer questão de sermos nossas tochas, assim se um se apagar, o camarada estará ao lado pra atear fogo, porque assim o seremos. Um fogo eterno. Uma chama de esperança, uma chama de luta. Que esse suspiro da novidade transforme o novo ano em ano novo, que quebre os paradigmas, que confronte tudo aquilo que achar injusto.
Desejo que seja feliz, e que, se parar ser feliz, precise realizar seu sonho, que realize. E que se pra realizar seu sonho, tenha um. E que se pra ter um sonho, seja imaginativo, e tire os pés do chão, um pouquinho. E que se não consiga voar, que feche os olhos - e que, com os olhos fechados, possa imaginar. E imaginando possa descobrir-se sonhador. E feliz.
Acima de tudo, desejo que não acomode-se com o que incomoda. E que justiça seja a palavra de lei desse ano que já tá começando, ao raiar do amanhã.
A poeira baixou, agora é hora de sentarmos e estudarmos.
Como é sabido, um instituto de pesquisa foi invadido por vândalos, e 200 cachorrinhos da raça beagle foram roubados de lá. Sim, dessa vez são vândalos mesmo.
Manifestações sobre a defesa dos animais são super bem vindas, e eu não acho justo que alguns animais sofram duramente durante algumas pesquisas. Agora vamos tentar entender porque o que essas pessoas estão bastante equivocadas ao fazer este tipo de ato:
i) O instituto estava em ordem, segundo inquérito da ANVISA e órgãos regulamentadores, o que leva a: ii) Os animais não estavam em condições precárias. Havia um controle das circunstâncias em que eles viviam, visando causar o maior bem estar possível, aos animais. Nenhum pesquisador é sádico e gosta de ver animais sofrendo. Conheço vários pesquisadores que tem pesadelos diariamente com os animais. Se não parecia que eles (animais) recebiam carinho, é porque de fato não recebiam; eles são cobaias, e como tal, tem que sofrer interferência zero ao propósito da pesquisa;
Obs.: método científico-> para desenvolver uma pesquisa, é necessário seguir um procedimento onde um número N de cobaias (estudado estatisticamente para cada propósito) é submetido a um único teste, para avaliar uma única reação. Essas cobaias podem ser números, imagens, animais e até humanos - tudo depende de que área e que efeito será pesquisado.
iii) As pesquisas ali podiam ter décadas de investimentos financeiros e humanos, alguns remédios podem ter atrasado em mais de uma década para saírem, e várias carreiras, dos pesquisadores, foram profundamente afetadas;
iv) Não estou dizendo que corroboro com a metodologia, mas ela é necessária até certo ponto. Atualmente, há métodos em desenvolvimento que, com cálculos avançados e estruturas moleculares, pode prever algumas das reações. Tecidos orgânicos humanos, sintéticos, cultivados a partir de células, também são utilizados. Mas são coisas que não conseguem reproduzir com certeza a eficácia, há uma série de reações alérgicas, interações bioquímicas, etc etc etc que impedem a certeza do experimento.
v) As organizações que regulam o uso de cobaias tem normas rígidas, e sempre é utilizado o número mínimo de cobaias, afinal, manter uma cobaia, totalmente isolada do meio, "inerte", é algo muito, MUITO caro, e bem desumano também, vamos combinar, né?
vi) Usar gente presa pra fazer os testes? Bem, cobaias humanas são utilizadas na última fase de qualquer coisa. Agora... USAR GENTE PRESA? Quer dizer que o cidadão cometeu um crime, agora ele é uma massa pronta pra teste? Um tal de Hitler tinha uma mentalidade só assim, idêntica, a essa. Privar uma pessoa de seus direitos humanos é algo totalmente incoerente. Aliás, é discurso de ódio, que é crime hediondo e OPS! Veja só! Crime de ódio leva à prisão sem direito à fiança - e você seria o próximo cobaia. Pense antes de abrir essa boca pra falar merda =D
vii) Sabe pq beagle? Eles são a raça que tem a linhagem genética mais uniforme, com variância mínima (tal como humanos), outras raças variam demais e tornam as coisas imprevisíveis. Além de algumas reações do organismo similares às humanas.
Então, no fim das contas, quem invadiu aquilo lá foi por uma falsa moralidade, e pode ter certeza que desperdiçou a vida de milhares de outros animais, fez a morte deles ser em vão, porque todos os resultados foram perdidos. E deviam olhar mais pra frente, aprender um pouco sobre as coisas, e olhar um pouco menos pro seu "umbeagle". Quer ajudar os bichinhos? Vire um químico/biólogo/médico/bioquímico/cientista/pesquisador fodão e ajude a desenvolver outras metodologias, que não o uso de animais. De resto? WALK ON HOME, BOY!
Eu desobedeci a máxima "não leia os comentários". E vi uma enxurrada de dizeres que me deixaram de cabelo em pé. E o pior é que isto reflete a mentalidade da população brasileira - o gigante que acordou. E haja preconceito pra constituir a carne desse gigante, viu? A matéria, sobre as últimas horas de Amarildo, não tinha nada de demais, era só um infográfico dizendo sobre o que foi concluído com inquéritos (http://noticias.uol.com.br/infograficos/2013/10/25/entenda-o-caso-amarildo.htm), de maneira simples. Mas aí... aí chegam os comentários. Coisas como "Fala sério, maior cara de n?óia, soltador de rojão para avisar tra/fican/tes que a policia estava sempre chegando.... Mais um pouco terá ONG lá em cima pró Santo Amarildo" ou "O Amarildo foi morto, os responsaveis tem que ser punidos e ponto. Mas porque todos estao empenhados em transformar este Sr em Martir? Sejamos racionais, nao e correto fazer justica com as proprias maos, mas cara que morre como oAmarildo, executado, no minimo tava no meio de toda a sujeira", ou "sou um civil comum, e mais uma vez vejo o sensacionalismo burro de uma imprensa mal formada e medíocre, deixa polícia trabalhar.". E eu poderia continuar transcrevendo os comentários até amanhã, porque a cada minuto chega mais uma dose de veneno. Eu me pergunto em que mundo eu vivo. Como as pessoas conseguem ser tão preconceituosas e estúpidas. Como elas pré-julgam as outras, julgam e condenam. O cara mora na favela, ele é bandido e sempre será; se fosse cidadão de bem ele se esforçaria, estudaria mais e teria um trabalho melhor. Acho bem válido compartilhar uma ideia (porque a imagem eu não achei) sobre um rapaz, canavieiro, que nunca pôde ir à escola, já que a mais próxima ficava a mais de 15km de onde morava, e os professores, quando presentes, não tinham materiais ou mesmo conhecimento/preparo pra ensinar, e o rapaz cresceu e continuou analfabeto, mas se mata de trabalhar, cortando cana. Paralelo a este cenário, o filho do dono da usina canavieira (onde o rapaz da sentença anterior trabalha), sempre teve a melhor educação, e herdou o império usineiro do pai, tendo que trabalhar pouco (pra não dizer quase nada) para chegar aí. Há uma grande dificuldade, em quem tem tudo (ou acha que tem tudo, porque lhes falta um senso de social muito grande, bem como muita educação e cultura - mas sobra dinheiro e lugar vago no cérebro, onde trabalham seus conceitos dogmáticos), de analisar o meio social dos outros, e perceber que nem todos tem a mesma oportunidade (caso ali de cima, do canavieiro e do usineiro). Falta a capacidade de enxergar o mundo como o é, e fazem questão de não entender isso, para poder despejar essa eloquência na fala, de como, com muito trabalho, conseguiu juntar dinheiro e comprar casa, criar filho, etc, etc, etc. Acha que se outra pessoa que pelo acaso teve ainda menos chance, não conseguiu "vencer na vida", essa pessoa foi folgada. Mas o mais grave é o que veio a seguir. Dizer que Amarildo tava no meio da sujeira - sem conhecer o senhor. Já lançar a justificativa de que só foi pego porque merecia, porque era bandido sim. E depois que a imprensa é medíocre por mostrar tanto do mesmo caso, "que tem muita coisa acontecendo no país, por que mostrar só esse caso? Ele era só mais um!". Bacana, bacana - o engraçado é que a mesma lógica não se aplica quando um médico, um classe média é assaltado, baleado, morto ou w/e, né? Pai de família morre, ele não merecia, tem que passar na TV - e o sensacionalismo se torna válido. CARA, isso tá errado! Primeiro que o caso não é pelo fato do Amarildo ter morrido. Ele não foi o primeiro. Ele não será o último. Mas ele é um símbolo! Se você acha que as coisas estão erradas, ao invés de condenar o Amarildo, lute por uma sociedade mais justa! Entenda que ele é uma bandeira levantada para representar milhares de 'moleques' que são abordados pela PM e apanham, diariamente! Que ele representa as moças que são agredidas sexualmente (não um estupro consolidado, mas se um policial diz que uma mulher é gostosa, em exercício da função isso é abuso de autoridade e é SIM um estupro, agravado, porque o PM é a segurança da população, não quem deve causar a preocupação!), dos pais e mães de família que, ao voltarem do serviço, são chamados de vagabundos, tomam revista violenta. O Amarildo é sim um só caso, mas ele é a representatividade do todo! Daí você me diz: mas não adianta fazer nada, nenhuma luta vai adiantar, nada nunca vai mudar. Ah, é? Por que você não se mata, então, já que está descontente com o mundo e acha que não vai mudar nada, mesmo? Já se estiver com vontade de deixar o mundo um lugar melhor, tem uma grande mudança que pode fazer: mude a si, como pessoa. Antes de condenar alguém, veja a situação da pessoa. E principalmente - abandone os preconceitos. Eles só servem pra prejudicar a dinâmica social. (primeiro texto onde testo a escrita sem usar gênero - ou tentando =P)
Eu andava no centro de Campinas, meados de 2008, lá pelas 17h, era verão e o dia estava claro. Uma viatura passou, desceram 4 policiais militares, já apontando a arma e "bota a mão na cabeça, dá uma abaixadinha, vai ajoelhando gostoso, e começa a oraçãozinha"; e enquanto cutucava o revólver na minha cabeça, sussurrava: "será que meu dedo vai escorregar?". Isso porque tenho carinha de burguês, imagina o que fazem com a galera de periferia.
Daí a Unicamp quer abrir as portas pra PM. Alguns dizem: acabou a farra dos maconheiros, Unicamp é lugar de estudo; quem não deve, não teme, etc. *bocejos*
E o Amarildo, o que é mesmo que ele devia?
E tem gente que não compreende a arma repressora do governo que é essa instituição.
E esse professor? O que ele deve, que tá tomando borrachada da PM? É, PROFESSOR. Quem cuida da educação. LUTANDO por seus direitos foi REPRIMIDO.
Daí a gente analisa os abusos, a truculência policial e as muitas situações de flagrantes forjados por PMs por todo o país. E agora me diz: Se a PM presente na universidade não reduz a criminalidade, POR QUE RAIOS há necessidade da PM?
Alguns alunos que não tem "cara de universitário", que não vestem o "uniforme" com blusa de marca, que não usam mochila pequena, porque tem um carro pra carregar o material, mora numa república às redondezas das principais portarias do campus... Essas pessoas, que estão na Unicamp pra estudar, estarão sujeitas à truculência policial, afinal de contas, quem não se lembra?:
A entrada da Polícia Militar, no campus, é uma afronta à liberdade acadêmica. A universidade tem, historicamente, um posicionamento de vanguarda, onde boa parte das ideias não são primariamente aceitas pela sociedade, transmitindo-se conceitos posteriormente, depois de adaptação.
A presença da PM tem um caráter milicioso, principalmente em locais como a periferia, ambiente "abandonado" pelo Estado, e os moradores dependem do assistencialismo de traficantes (muitas vezes de mãozinhas dadas com deputados por aí...), e a PM faz um serviço de "segurança privada", empoderando-se e quebrando leis para "manter a ordem". Não é este tipo de "ordem" que precisamos na universidade. Não é de PMs que precisamos lá dentro, para que aconteçam coisas DESTE gênero, onde a ironia extrapola o bom senso e o ridículo.
Os PMs são treinados para agirem de maneira truculenta, e eu não quero que muitos amigos, que nem sempre tem carinha de boy/paty sejam abordados. Eu fiquei traumatizado com uma das abordagens, e isso porque não cheguei a sofrer nenhuma agressão física. Mas amigos já tomaram porrada. E nem sempre foi pouca coisa. E foram perseguidos pela polícia.
A pergunta que fica é: se nós somos o povo, e estamos lutando pela nossa liberdade, sem desrespeitar nenhuma lei... A PM tá defendendo a quem? Não passam dos cães do governo.
Pecamos
Pecamos sim, ao não fazer com que a Unicamp seja uma universidade pública. Há um total descaso com o terceiro pé de sustentação da universidade. Pesquisa e ensino são supervalorizados, e a Unicamp forma tecnicistas de altíssima qualidade, fornecendo mais e mais insumos pra sustentar o sistema. E a parte em que a universidade tange à sociedade, por meio da extensão? Onde fica? As pessoas só depredam àquilo que não lhes importa, ou não lhes pertence. Como eu disse em postagem anterior, não se vê hospitais ou locais que prestam assistência à população sendo depredado. O que falta, na universidade, é essa proximidade com o povo. E sem o nojinho de ter contato com o povo, como eu vejo muita gente por aí, reclamando que "zé povinho/funkeiro/rapper", entre outros, são perigosos, são marginais. São marginais sim. São marginalizados por você, que não quer conviver no mesmo ambiente. Isso é marginalização, é por de lado alguém! Os alunos precisam lutar pela propagação da Universidade para o povo, só assim, a longo prazo, teremos o retorno e o fim da violência no campus.
A entrada da PM representa a vontade do reitor de ter às palavras de ordem e repreensão. Além da tirada de corpo da Unicamp, em relação às festas e a falta de comprometimento da gestão da universidade em relação a toda essa criminalidade crescente na região. Para complementar, depois do petit aí em cima, sugiro que leiam os textos do link a seguir, que refletem meu pensar: http://mariliamoscou.com.br/blog/?p=3020
Beijos de luz. Pra quem é contra a entrada da PM. Pra quem é favorável, espero que seja abordadx pelo menos uma vez, com toda a truculência que eu fui, pq alguns amigos sofreram muito mais, mas daí já é pesado, só a minha abordagem já basta, pra vocês.