Meus últimos dois dias vêm sendo especialmente desgastantes, psicologicamente falando. Não gosto de expor meus problemas, mas acabo fazendo, periodicamente, para evitar explosões. Infelizmente explodi ontem.
Na última postagem, acabei fazendo um comentário infeliz sobre um pequeno problema que tive, tentando dar um tom de humor ao assunto, mas o efeito foi adverso, já que meus queridos leitores prestaram mais atenção no MEU problema do que no problema da SOCIEDADE. Guys, eu não tenho importância! O povo tem!!! Então por favor, vejam a crítica social quando eu escrever - e se eu reclamar de alguma coisa, será sarcasmo, para mostrar que também tenho dificuldades, mas é para vocês rirem e se divertirem um pouco comigo, ok?
Hoje, eu gostaria de falar sobre uma coisa complicada, que nem eu sei direito do que se trata, mas reparei que muitas pessoas tem esse tipo de dificuldade; quero falar sobre o que resolvi nomear como 'doenças sociais'. Desconsiderando o último parágrafo, vou usar um exemplo meu para comentar sobre esse tema, mas não será sarcasmo, beleza?
Conceitualmente falando, o que é a Sociedade? Não uma sociedade, como na biologia; me refiro à "instituição" sociedade. Nosso porto seguro, motivo de sermos considerados seres racionais, nossa organização. É difícil estabelecer um conceito, e temos diversas dissertações filosóficas e sociológicas, que não me convém comentar por não ter esse cacife todo - afinal, sou um engenheiro em formação, não um cientista social "^^.
Mas, partindo do princípio que a Sociedade é uma instituição, como tal há de ser estabelecido um código de conduta, geralmente apresentado sob a forma da legislação - oficialmente falando. Mas, além da legislação, há um segundo 'código' que é tomado: o código de ética/moral, que advém do bom senso.
Bom senso? Vamos explorar mais a fundo o que seria o bom senso... [i]A Priori[/i] não é o Bem como previsto pelos cristãos, budistas e demais doutrinas; é um bem comum. Um bem comum. Para ser um bem comum, naturalmente, há de ser um padrão que aloque o maior número de sociáveis possível, sem que prejudique os demais.
Logo o bom senso nada mais é do que um padrão a ser seguido, uma legislação secundária. Acontece que é um código de conduta que não é igualitário. Alguns acabam por ter mais privilégios por gozarem de posição social mais elevada. Em algumas culturas - os mais velhos, em outras, os mais sábios; na nossa, os mais ricos. Ou famosos, populares. Sim, populares em todos os sentidos; desde um ator que seja bem falado até um rapaz popular na escola. Sempre gozam de mais benefícios.
Mas quanto nos custa esse bom senso? Temos de nos adequar quanto a ele? Sacrificamos pedaços de nossa personalidade, traços da nossa verdadeira essência, do nosso verdadeiro Ser para que possamos ser aceitos pelos demais do grupo. Deixamos de saciar nosso ego, ou o deformamos para que possamos ter nosso "lugar ao Sol". Mas sabe? Nunca gostei do sol, nem de praia, nem de festas. Sempre fui recluso, e paguei um preço por isso; sou pouco apreciado por colegas de turma na graduação, por exemplo. Sou posto como secundário nas preocupações por não estar ali, fazendo o que todos fazem.
Até aí, nada demais. Faço isso de maneira consciente e meu caso é brando. Aliás, estou privilegiado pela quantidade de amigos que tenho, que compartilham interesses semelhantes. Na real, queria comentar sobre meu pai.
Acho que ele se aplica como um doente social.
Ou seja, onde há uma maior quantidade de pessoas com determinadas características, há o ponto mais alto desta curva.
Logo, notamos que, tanto no extremo esquerdo quanto direito, há menor quantidade de pessoas, mas que, teoricamente, nunca será zero absoluto.
Pois é, meu pai se enquadra num desses extremos. É um cidadão, portanto, goza de seus direitos legais como cidadão. Mas tem um problema: ele não é "normal" como o resto da Sociedade quer que seja. Ele tem alguns pontos diferentes, um padrão de comportamento diferente do padrão. E ele se esforçou nos seus 47 anos de vida para tentar se alocar bem nesse miolo da curva. E essa vontade se tornou uma patologia a ponto d'ele não ter mais condições de conviver socialmente.
Hoje, ele apresenta traços de apatia, quase alucinações, a mente dele vai a lugares que não são permitidos por esta sociedade. A idéia de se alocar nesse padrão de comportamento deixou-o louco. Ele não pode mais estar na sociedade, pois perdeu as noções do que é real e do que não o é.
Há uma pressão muito grande para que nos enquadremos, mas por vezes, não somos compatíveis com os padrões exigidos. E às vezes essa pressão torna-se tão grande, e o risco de ser expulso do círculo social torna-se tão iminente... que piramos. No caso dele, um transtorno dissociativo. Perde-se a noção de quem se é, ou de com quem se convive. Por conta de epilepsia, o transtorno dissociativo nascido dessa pressão social fez com que suas crises voltassem à tona. E por se tratar de um tipo de loucura, o levou às últimas consequências, fazendo sua casa, seu pilar de sustentação, ruir.
Foram dois anos cachorros, de muita correria e transtornos à minha mãe, meu irmão e a mim. De fato, a "culpa" é dele, por não ter se enquadrado. E gerado dificuldade para nós todos aqui de casa, vizinhos e companheiros de trabalho. Agora... como julgar ele como torto, desnorteado... se esse padrão é mutável e destrutivo?
Quantos mais perderão seus parafusos antes que pratiquemos uma política de tolerância às diferenças?
Gostaria que vocês, leitores, comentassem sobre esse texto que, embora longo, tenha funcionado como um desabafo, além do caráter crítico ao nosso "bom senso".
Abraços.